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Por que projetos Open-Source têm 10 pessoas contribuindo e 200 pessoas desfrutando?

Introdução

O modelo open-source é um dos pilares mais revolucionários da tecnologia moderna. Ele permite que qualquer pessoa use, modifique e distribua software livremente, fomentando inovação e colaboração. No entanto, um padrão recorrente é que, enquanto centenas ou milhares de pessoas utilizam um projeto open-source, apenas uma pequena parcela contribui ativamente para seu desenvolvimento. Mas por que isso acontece?

Minha experiência como contribuidor Open-Source e da Localização Brasileira do Odoo

Hoje, faço parte do grupo de desenvolvedores que contribuem ativamente para a Localização Brasileira do Odoo. Percebi que muitas empresas utilizam a solução, mas poucas estão dispostas a investir tempo ou recursos para aprimorá-la.

A Localização Brasileira do Odoo é um exemplo clássico desse fenômeno: um pequeno grupo de empresas e desenvolvedores trabalha constantemente para adaptar e atualizar o sistema, garantindo que ele atenda às exigências fiscais, como SPED, NF-e, NFS-e, entre outras. Enquanto isso, centenas de empresas utilizam essa solução diariamente para emitir notas fiscais, gerenciar finanças e otimizar processos internos sem contribuir ativamente.

O desequilíbrio entre contribuição e consumo

Projetos open-source, como o Odoo e sua Localização Brasileira, dependem de contribuições voluntárias e comunitárias. No entanto, contribuir para um projeto exige tempo, conhecimento técnico e, muitas vezes, um entendimento profundo do código e das necessidades do mercado. Muitas empresas e usuários individuais se beneficiam do software, mas nem todos estão dispostos ou capacitados para dedicar esforços ao seu aprimoramento.

As principais razões para esse desequilíbrio incluem:

Falta de conhecimento técnico – Nem todos os usuários possuem habilidades em programação ou conhecimento sobre como contribuir de forma eficaz.

Foco no uso imediato – Muitas empresas e profissionais utilizam o software como ferramenta de trabalho e não priorizam a manutenção ou evolução do código.

Custo de aprendizado – Contribuir para um projeto grande exige tempo para entender sua estrutura, padrões e processos de contribuição.

Mentalidade de consumo – Algumas empresas enxergam o open-source apenas como uma solução gratuita e não como um ecossistema colaborativo.

Acredito que esse último tópico seja o primordial, muitas pessoas ou empresa acreditam que Open-Source algo gratuito, não vem o esforço de outras empresas para contribuir colocar o projeto rodando principalmente um ERP gratuito

Conclusão

O open-source só se sustenta quando há equilíbrio entre quem consome e quem contribui. No caso do Odoo e da Localização Brasileira, o esforço de poucos impacta positivamente a vida de muitos. Como contribuidor, percebo o quanto é importante que mais empresas e profissionais entendam a relevância da colaboração e do investimento no ecossistema open-source. Afinal, se 200 pessoas desfrutam, seria justo que mais de 10 contribuíssem.

Pra quem tiver interesse o repositório da Localização: https://github.com/OCA/l10n-brazil

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Meus 2 cents:

Meu alter ego participa de alguns projetos free-software/open-source, e vou um pouco na contramao do artigo.

Se voce dobrar o numero de colaboradores (p.ex. 10 de 20) vai esbarrar em outro dilema: a governanca.

Neste exemplo, eh raro voce ter os 20 realmente agregando no codigo, mas sem duvida estarao interagindo (dando palpites e pitacos) sobre o meio e forma sobre como algumas coisas estao sendo feitas.

Se voce age como um "ditador benevolente" escutando todos mas batendo martelo por uma opcao ou outra, vai ser acusado de "ditador malvado que nao tem visao".

Se voce nao age o projeto "congela" e as commits importantes demoram anos.

Acaba-se gastando tempo precioso gerenciando os egos - uma simples publicacao comentando detalhe de um codigo pode levar a uma discussao de meses, arrastando pessoas e expondo todo tipo de mesquinharias - alem de eventualmente afastar aqueles que de fato contribuem para o codigo real.

Levando-se em conta ainda que o dev tem de fazer isso no tempo livre - sacrificando a vida pessoal para tentar da via ao projeto...

Enfim, nao vou deixar de participar de projetos da comunidade por conta disso - mas tenho serias resalvas em determinados tipo de projeto com muita gente.

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É isso mesmo. Tem o problema do ser humano querer tudo com o menor esforço, como demonstrado na postagem principal e projetos grandes são mais problemáticos, especialmente entre voluntários, que sempre acham que já que ele não recebe não tem maiores obrigações, pelo contrário, os outros é que têm com ele, o que faz algum sentido, mas a conta não fecha. E novamente, isso é ser humano. Eu sei disso porque eu sou um, apesar que alguns acham que não :D

Eu tenho vontade de criar um projeto aberto sem interesse algum em lucro, mas eu sei os problemas que vou ter que eu não gostaria de ter que gerenciar, isso se tiver um míni9mo de tração.

Eu gosto muito de licenças realmente livres (não só no nome), mas admito que algumas mais restritivas podem trazer mais gente a contribuir de uma forma ou de outra, até com dinheiro.

S2


Farei algo que muitos pedem para aprender a programar corretamente, gratuitamente (não vendo nada, é retribuição na minha aposentadoria) (links aqui no perfil também).

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Acho que você tem razão em alguns pontos, mas a questão da governança é simples: as pessoas podem atuar como mantenedoras de partes específicas do projeto, assim como já acontece hoje na localização.

Sobre o tempo disponível, talvez eu não tenha abordado isso com profundidade, mas quando falo de contribuição, me refiro também à possibilidade de colaborar durante o expediente de trabalho. Quem utiliza o software em produção conhece tanto seus aspectos técnicos quanto funcionais, o que facilita a participação ativa no desenvolvimento.

Acredito que o Open Source tem um futuro promissor, mas é necessário repensarmos alguns aspectos, como as licenças e formas de tornar a contribuição mais atrativa, especialmente para aqueles que dedicam mais tempo e esforço ao projeto.

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CristianoMafraJunior, obrigado por iniciar este debate crucial. Sua pergunta toca no em um problema fundamental de toda sociedade moderna.

O Heartbleed expõs brutalmente a falácia do Open Source. Um desastre de segurança em software essencial, mantido precariamente por voluntários, enquanto bilhões de usuários e corporações, especialmente a Big Tech, se beneficiam sem reciprocidade. Este caso emblemático escancara a insustentabilidade e a injustiça do modelo.

Recentemente, estivemos à beira de um desastre similar com a vulnerabilidade no XZ Utils. Por um triz, evitamos outro colapso sistêmico. Fica cada vez mais claro, não aprendemos a lição: é apenas uma questão de tempo até que a próxima catástrofe aconteça. A estrutura do Open Source, como está, a convida.

Desde a era inaugural da web, a infraestrutura digital – com stack LAMP (e todos seus sucessores – é alicerçada em Open Source. As gigantes da tecnologia e a todas startups da Internet construíram impérios explorando o trabalho comunitário sem contrapartida. É crucial reconhecer: A GPL fracassou.

A ironia final: o desenvolvimento web finalmente caminha para a propriedade. Empresas ergueram produtos que são apenas embrulhos ao redor software livre, e por meio do modelo de Software como Serviço (SaaS), evadem a obrigação de retribuir à comunidade. Este é o maior golpe do século XXI: privatização total do lucro e a socialização completa do esforço e do risco.

Para entender a profundidade dessa apropriação, é preciso recordar a história. O movimento do Software Livre nasceu como um ato de rebelião contra a crescente mercantilização do software e o poder corporativo. A Free Software Foundation nasceu justamente para lutar contra um mundo onde o software era cada vez mais fechado e controlado por poucas grandes empresas. Mas então, o "Open Source" emergiu, não de forma orgânica, mas como um jogada de mestre bem orquestrado pelas corporações para anular toda liberdade do Software Livre, deixando-o apenas a "aberto" – aberto para a exploração.

É por isso que "Open Source" precisa morrer. Assim como corporações deturparam o Software Livre em Open Source para seus propósitos, a comunidade deve agora forjar um novo paradigma. A solução reside em royalties: liberdade irrestrita para aprendizado, experimentação e uso pessoal, mas contribuição financeira justa para exploração comercial.

A dificuldade de implementação é inegável, mas a QT demonstra a viabilidade deste modelo. A alternativa – a perpetuação da exploração e a crise de sustentabilidade do software essencial – é caminhar para o precípicio.

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Muito obrigado pela opinião! Achei a ironia no final muito bem colocada—de fato, a privatização dos lucros acaba beneficiando apenas as organizações privadas. No entanto, discordo da ideia de que o Open Source está morrendo. Acredito que o caminho para o futuro do Open Source pode seguir dois modelos distintos.

Primeiro, penso que o Open Source deveria funcionar como uma associação, onde todos contribuem e podem usufruir do projeto. Não me refiro a pequenas correções em documentação, mas a contribuições mais significativas, como melhorias de código ou novas funcionalidades. A ideia seria estabelecer um sistema no qual o acesso ao código-fonte estivesse vinculado à participação ativa no projeto. Alguém poderia argumentar que uma pessoa pode contribuir uma vez e depois parar, mas um modelo baseado em contribuições recorrentes tornaria o projeto mais sustentável.

O segundo modelo seria disponibilizar uma versão mais básica do software gratuitamente, enquanto a versão completa exigiria algum tipo de contribuição. Dessa forma, quem realmente utiliza e se beneficia do projeto poderia apoiar seu desenvolvimento de maneira justa e equilibrada.

Recentemente, vi o CEO do ChatGPT comentando sobre o DeepSeek e como a OpenAI está caminhando para liberar seus modelos de IA mais básicos como Open Source. Acredito que projetos Open Source poderiam seguir essa mesma lógica: oferecer uma base acessível a todos, mas incentivar contribuições para acesso a recursos mais avançados.

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Não sei se o open source está morrendo — talvez pelo contrário, esteja mais vivo do que nunca. Mas sua evolução é urgente para evitar crises como Heartbleed e XZ Utils, que escancaram a fragilidade de projetos críticos, usados por bilhões, mas mantidos por poucas mãos invisíveis.

O exemplo do Linux mostra que o modelo pode funcionar: mais de 80% das contribuições vêm de desenvolvedores pagos por empresas como Intel, Google e Microsoft. Esse é o "santo graal" do open source corporativo, onde gigantes investem porque o kernel é vital para seus negócios. A governança centralizada (Linus Torvalds e a Linux Foundation) evita caos, garantindo que contribuições se traduzam em progresso, não em discussões infinitas.

Mas por que esse sucesso não se repete em projetos como OpenSSL ou XZ Utils? A resposta é simples: enquanto o Linux é infraestrutura óbvia, projetos menores só ganham atenção quando quebram. Empresas usam OpenSSL para criptografar transações bilionárias, mas nenhuma se sente responsável por mantê-lo — até que uma falha como o Heartbleed ameace toda a internet. São "bens comuns" digitais: todos usam, ninguém é "dono".

O modelo open-core (uma versão básica gratuita e recursos premium pagos) é de fato uma alternativa. Empresas como GitLab, MongoDB e muitas outras o adotam com sucesso. Mas sempre gera desconfiança na comunidade.

A ideia de uma "associação de contribuintes" — onde só quem contribui tem acesso — esbarra na realidade da governança. Quem define o que é uma contribuição "suficiente"? Como evitar que pequenos grupos controlem o projeto?

Uma ideia que poderia funcionar:

Financiamento coletivo obrigatório, como um "imposto" pago por empresas dependentes. Consórcios geridos por entidades neutras (ex: Apache Foundation) poderiam redistribuir recursos. Seja desde através de leis que obriguem empresas de tecnologia a alocar % dos lucros a projetos open-source que usam. Até campanhas para educar usuários: open-source não é "grátis", é infra estrutura coletiva. Então a ideia de um imposto faz muito sentido. Mas os problemas de aplicar isso são enormes. Mas...

Entidades como a ASCAP ou o ECAD no Brasil já fazem isso na música (por isso fiz a analogia com royalties), arrecadando e redistribuindo recursos de forma organizada. Não é perfeito, mas artistas recebem pagamentos "justos" pelo uso de suas músicas em rádios e plataformas de streaming. Claro aplicar algo assim para o open-source é tarefa quase impossivel. Ainda assim, o precedente existe e oferece um modelo a ser adaptado.

Enfim o open source não esta morrendo, mas precisa de uma revolução em seu contrato social. A saída está em combinar idealismo (do Free Software) com pragmatismo (do Open Source): licenças e modelos que permitam liberdade, mas exijam reciprocidade corporativa, e um reconhecimento coletivo de que software livre só sobrevive, se quem o usa, entender que ele precisa ser sustentado, não explorado.

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ótimo artigo!
realmente open-source é algo no geral ingrato, por isso vários projetos grandes em algum momento acabam mudando para uma licença proprietária ou acabam mudando pra uma licenca mais restritiva, uma licença source available ou crindo madulos com limitações adicionais, no médio ou longo prazo acaba fazendo sentido pra ter um reconhecimento maior ou uma recompensa monetária. quanto as empresas seria interessante ter mais empresas contribuindo como um todo. acabo usando muitas ferramentas open-source e tento ajudar como posso, algumas não consigo entender como funciona pra poder contribuir então acabo fazendo alguma sugestões, traduzindo, revisando documentação, ajudando nas issues ou algo do tipo, algumas consigo contribuir com código ou ajudando em testes, construindo ou ajustando pipeline... bem nem todos tiram esse tempo ou tem pra contribuir mas é algo que gosto de fazer e ajuda a me sentir parte da comunidade e contribuir!
enfim seria legal empresas terem mais engajamento como serem obrigadas a contribuir com horas de analise ou valor monetário... quem sabe um dia ...

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Então, em grosso modo nem todos são programadores.
Ou não tem tempo pra entender o código e ajudar.
Ou ainda não querem.
Ou pior, "é de graça, porque vou ajudar?"

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Em geral, OpenSource é isso mesmo, um bando de freerider que não contribuim nem com código e nem com dinheiro.

ERP é bem complexo e muita gente que chega na comunidade do Odoo quer algo de graça e acha que você tem obrigação de ajudar a pessoa sem reclamar ou cobrar algo. O pessoal queria que o Odoo tivesse instalador com botão de próximo e concluir que resolvesse o problema dele.

Não só o Odoo, mas muitos projetos Python usam a PyNFE (do Junior e Leo Tada) e os caras, até onde sei, nunca ganharam um centavo com isso.

Eu criei a biblioteca para SPED (python-sped) que chegaram a integrar no Odoo (OpenERP na época) mas não sei se ainda é usada porque arquivei o projeto e parei de dar manutenção a muitos anos.

A python-sped sempre tinha gente querendo que ajudasse a integrar (inclusive em solução comerciais fechadas) sem contribuir de forma alguma com o projeto, depois de anos sem contruição arquivei o projeto e deixei de responder.

Especificamente para o Brasil que tem um monte de especifidades, um ERP só vai atender 100% (o Odoo até onde eu sei não faz um monte de coisa que a receita federal pede como SPED, DCTF, eSocial e afins, não servindo para uma empresa que tem contabilidade integrada) quando o pessoal se juntar e criar uma entidade que possa receber dinheiro e patrocinar desenvolvedores e contadores para fazer e validar um sistema que atenda tudo que precisa.

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Muito obrigado pela sua opinião, você levantou questões muito importantes sobre a sustentabilidade do Open Source, especialmente em projetos complexos como ERPs. De fato, um dos maiores desafios é a quantidade de usuários que querem soluções prontas sem contribuir de nenhuma forma, seja com código, suporte financeiro ou mesmo feedback estruturado.

No caso do Odoo, essa mentalidade se torna ainda mais evidente. Muitas pessoas chegam à comunidade esperando um sistema 100% funcional sem qualquer esforço ou custo, como se fosse obrigação dos desenvolvedores voluntários fornecer suporte gratuito.