Bancos de Dados Relacionais: Avaliação Segundo as Principais Características
No primeiro artigo desta série, vimos as características gerais que podemos analisar para escolher um tipo de banco de dados. Agora, vamos aplicar esses critérios ao banco de dados relacional (SQL), atribuindo uma nota de 0 a 10 (quanto maior, melhor desempenho ou aderência do banco nesse quesito) para cada uma das sete categorias:
- Curva de Facilidade de Aprendizado
- Facilidade de Modelagem de Dados
- Escalabilidade / Taxa de Transferência
- Disponibilidade e Tolerância de Partição
- Consistência
- Suporte, Maturidade, Comunidade e Compatibilidade SQL
- Prioridade de Leitura e Gravação
Lembrando que as notas são aproximadas e podem variar entre diferentes produtos relacionais (MySQL, PostgreSQL, Oracle, SQL Server etc.), mas refletem uma visão genérica dos bancos de dados relacionais.
1. Curva de Facilidade de Aprendizado
Nota: 8/10
Por Que
- A maioria dos profissionais de TI tem contato com SQL e modelagem relacional na universidade ou em cursos comuns no mercado.
- Existe farta documentação e um ecossistema maduro com ferramentas GUI (ex.: Adminer, DBeaver, PGAdmin etc.).
- A sintaxe SQL é padronizada (apesar de algumas diferenças específicas por fornecedor).
Observações
- Alguns aspectos avançados (tuning de performance, triggers, stored procedures complexas) podem ter curva de aprendizado adicional.
- Mesmo assim, a base essencial é relativamente fácil de abordar.
2. Facilidade de Modelagem de Dados
Nota: 9/10
Por Que
- O modelo relacional é bastante consistente e estruturado, com tabelas, colunas e constraints (chaves estrangeiras, unique, check).
- Ferramentas de diagramas ER (entidade-relacionamento) facilitam a visualização e o design.
- Bom para cenários de dados com estruturas bem definidas e relacionamentos clássicos (1:N, N:N).
Observações
- Se o domínio exige esquemas mutáveis/variáveis (ex.: muitos campos opcionais, estruturas semiformatadas), a modelagem pode ficar mais complicada — ou levar a tabelas muito amplas e cheias de colunas nulas.
- Bancos NoSQL podem ter mais facilidade nesses casos. Mas, para modelagem padrão e com relacionamentos claros, o relacional é excelente.
3. Escalabilidade / Taxa de Transferência
Nota: 6/10
Por Que
- Historicamente, bancos relacionais escalam verticalmente (mais CPU/RAM/disco numa única máquina).
- Para grandes volumes ou taxas de escrita, configurar sharding ou clusters de réplica pode ser complexo — embora alguns produtos suportem bem (PostgreSQL com Citus, MySQL com Vitess, sharding nativo em alguns forks, AWS replic).
- Ainda assim, bancos relacionais podem fornecer ótimo desempenho numa instância bem configurada, mas não é trivial para cenários de hiperescalabilidade (ex.: petabytes de dados e bilhões de requisições diárias).
Observações
- Modernos bancos relacionais em nuvem (ex.: Aurora, AlloyDB) oferecem escalabilidade maior, mas não é tão simples ou linear quanto em algumas soluções NoSQL.
- Para a maioria dos sistemas de porte médio e grande, ainda funciona muito bem.
4. Disponibilidade e Tolerância de Partição
Nota: 6/10
Por Que
- Bancos relacionais podem oferecer alta disponibilidade (HA) via replicação (master/replica, cluster), mas geralmente com maior complexidade e restrições, principalmente em cenários de escrita distribuída.
- Tolerância a partições de rede não é tão forte quanto algumas bases NoSQL que foram desenhadas para ambientes altamente distribuídos (Cassandra, Riak, etc.).
- Em caso de partição de rede, bancos relacionais priorizam consistência, podendo recusar escrita ou exigir failover manual.
Observações
- A nota varia muito dependendo do setup (e.g., Oracle RAC, Galera Cluster para MySQL, Patroni para PostgreSQL), mas em geral, não é tão “fácil e natural” quanto bancos NoSQL que adotam um modelo AP (Availability, Partition tolerance) do teorema CAP.
5. Consistência
Nota: 9/10
Por Que
- Bancos relacionais seguem o modelo ACID (atomicidade, consistência, isolamento, durabilidade) como fundamento.
- Garantem transações fortes, com opções de isolamento (READ COMMITTED, SERIALIZABLE etc.) que asseguram integridade.
- Ideal para cenários de transações críticas (financeiras, contábeis, ordens de pedido etc.).
Observações
- Em setups distribuídos, manter consistência forte pode impactar disponibilidade (um trade-off do teorema CAP).
- A nota é alta pois consistência é um dos pilares do modelo relacional.
6. Suporte, Maturidade, Comunidade e Compatibilidade SQL
Nota: 10/10
Por Que
- Bancos relacionais existem há décadas e possuem ampla maturidade. Exemplos: MySQL (1995), PostgreSQL (1996), Oracle (1979), SQL Server (1989).
- A comunidade é vasta, com muitos foruns, tutoriais, livros.
- Compatibilidade SQL é praticamente um padrão de mercado, facilitando a portabilidade de queries entre fornecedores (embora com extensões proprietárias).
Observações
- É difícil bater bancos relacionais em termos de histórico, suporte oficial (empresas como Oracle, Microsoft, etc.) e comunidade (MySQL, PostgreSQL são open source com grandes comunidades).
7. Prioridade de Leitura e Gravação
Nota: 7/10
Por Que
- Bancos relacionais normalmente trabalham bem com uma carga mista de leituras e escritas.
- Para cenários extremamente intensivos de leituras ou escrituras, pode ser necessário otimizar (indices, caching) ou usar réplicas (para leitura).
- Bancos NoSQL podem oferecer maior throughput de escrita, dependendo do tipo de partição e replicação.
Observações
- Em geral, bancos relacionais equilibram leituras e escritas, mas não costumam chegar ao mesmo pico de throughput de escrita que alguns sistemas NoSQL horizontais (Cassandra, por ex.).
- Para leitura intensiva, indexing e uso de réplicas ajudam bastante, mantendo um bom desempenho.
Resumo das Notas
Característica | Nota |
---|---|
Curva de Facilidade de Aprendizado | 8/10 |
Facilidade de Modelagem de Dados | 9/10 |
Escalabilidade / Taxa de Transferência | 6/10 |
Disponibilidade e Tolerância de Partição | 6/10 |
Consistência | 9/10 |
Suporte, Maturidade, Comunidade, Compat. SQL | 10/10 |
Prioridade de Leitura e Gravação | 7/10 |
Interpretação Geral
- Pontes Fortes: Facilmente compreensíveis (SQL), modelagem de dados estruturados, transações ACID, comunidade massiva.
- Desafios: Escalabilidade horizontal e alta disponibilidade em casos de partição de rede.
- Onde brilha: Aplicações com relacionamentos complexos, transações críticas, e onde se quer aproveitar a ampla experiência de mercado e a padronização SQL.
Conclusão
Bancos de dados relacionais continuam sendo a coluna vertebral de muitos sistemas, sobretudo quando precisamos de transações fortes, modelagem clara e ferramentas maduras. Embora escalabilidade em larga escala e alta disponibilidade possam exigir um design mais elaborado (clusters, réplicas, sharding), a consistência e a robustez do modelo relacional ainda fazem dele uma escolha excelente para inúmeras aplicações corporativas.
No próximo artigo da série, exploraremos outro tipo de banco, analisando o mesmo conjunto de características para ajudar a comparar e decidir o que melhor se encaixa nas necessidades do seu projeto.
Notas Bibliográficas
Arquitetura de Software: As Partes Difíceis. Editora Alta Books.