Arrumar a casa antes de demolir: Pulamos essa etapa na ânsia pelos microsserviços?
E aí, pessoal!
Tenho pensado muito numa coisa que surgiu em outras discussões: aquela hora que o sistema legado, o nosso bom e velho monólito, começa a pesar. Deploy fica lento, mexer numa coisinha quebra outra lá longe, a complexidade parece um monstro crescendo no armário...
Nessa hora, com toda a modinha e o hype em cima dos microsserviços, a reação quase automática de muitos times (e gerentes, e arquitetos...) é sacar o martelo da demolição e gritar: "Vamos quebrar tudo em microsserviços! É o futuro!". Soa moderno, escalável, currículo agradece, né?
Mas aí me bateu a reflexão em cima de uma frase: a gente realmente tentou arrumar a casa antes de decidir que precisava demolir tudo?
O que seria "arrumar a casa" no nosso mundo de código?
- Dar um trato sério no código: Refatorar aquelas partes mais críticas, simplificar o que tá complicado demais.
- Blindar com testes: Criar testes automatizados (unitários, integração) pra gente poder mexer com mais confiança, sem medo de quebrar tudo escondido.
- Organizar as gavetas: Separar melhor as responsabilidades dentro do próprio monólito. Criar módulos mais claros, com limites bem definidos (o famoso "Monólito Modular"). Muitas vezes, só isso já melhora MUITO a organização.
- Agilizar a "entrega": Melhorar o processo de CI/CD do próprio monólito. Builds mais rápidos, deploys mais seguros e frequentes. Às vezes a dor não é o código em si, mas a dificuldade de colocar ele em produção.
- Pagar as contas atrasadas: Atacar aquelas dívidas técnicas que mais atrapalham o dia a dia.
Por que se dar ao trabalho de "arrumar a casa"?
- Menos risco e custo inicial: Uma reforma bem planejada geralmente é menos traumática e mais barata do que uma demolição e reconstrução completa (migração pra microsserviços).
- Entendimento profundo: Ao reformar, você é forçado a entender muito melhor a estrutura atual, os problemas reais e o domínio do negócio. Esse conhecimento é ouro, mesmo que você decida migrar depois.
- Pode ser o suficiente: Muitas vezes, os problemas que levaram à ideia de "demolir" (lentidão no desenvolvimento, dificuldade de deploy) podem ser resolvidos ou muito aliviados com essa "reforma". Talvez a complexidade distribuída nem seja necessária!
- Prepara o terreno: Se, mesmo depois da reforma, a demolição (extrair serviços) ainda for necessária, você vai fazer isso a partir de uma base muito mais sólida e organizada. É como começar a fazer os "puxadinhos" (extrair serviços aos poucos, Strangler Fig) depois que a estrutura principal da casa está firme.
- Prova Real que Funciona: E não pensem que isso é só pra sistema pequeno! A prova de que "arrumar a casa" funciona mesmo em larga escala são exemplos de gigantes como Shopify, GitHub, Stack Overflow e Basecamp/Hey. Muitos deles mantêm um "casarão" monolítico (ou boa parte dele) bem cuidado no centro do negócio, mostrando que essa abordagem pode ser extremamente bem-sucedida e escalável, sem precisar cair na complexidade total dos microsserviços só por seguir a moda.
A questão que fica é: será que muitas vezes culpamos o "prédio" (a arquitetura monolítica) quando o problema real era a "falta de manutenção", a "bagunça interna" e as "gambiarras" acumuladas (más práticas, falta de testes, acoplamento desnecessário)? Jogar a culpa só na arquitetura é fácil, mas nem sempre é justo.
Queria lançar a reflexão pra comunidade:
- Vocês já viveram essa situação? Optaram por "reformar" ou foram direto pra "demolição"? Como foi a experiência?
- Conseguiram resultados bons "arrumando a casa" de um monólito, fazendo ele viver mais e melhor? Quais estratégias usaram?
- Em que cenários vocês acham que não tem jeito, a "demolição" (ir pra microsserviços) é realmente o único caminho, mesmo após tentar a reforma?
- Será que a gente, como indústria, pula muito a etapa da "reforma" por causa do brilho da novidade e da pressão por "modernizar"?
Bora trocar uma ideia sobre isso? Acho que tem muito aprendizado aí!
Abraços!