Tecno-Feudalismo, 'Cloudalistas' e a Responsabilidade dos Programadores na Construção de um Futuro Próspero
Resumo: Este artigo explora o conceito do "tecno-feudalismo", comparando o domínio das empresas de tecnologia com o controle da Igreja e dos senhores feudais na Idade Média. Argumenta-se que as empresas de tecnologia estão acumulando poder nunca antes visto na história moderna, influenciando decisões, moldando o conhecimento e ameaçando a ordem da sociedade. Os programadores desempenham um papel fundamental na construção desse futuro, pois têm o poder de decidir como os dados são coletados, utilizados, compartilhados e processados. A ética e a responsabilidade social dos programadores são essenciais para mitigar os riscos desse cenário e criar um futuro mais livre e próspero para todos.
Introdução:
O advento dos computadores eletrônicos digitais em meados do século XX representa um dos saltos tecnológicos mais disruptivos da história da humanidade. Assim como a prensa tipográfica, o motor e as revolucionárias Caravelas, a tecnologia digital reformulou fundamentalmente a maneira como vivemos no mundo. Ela não só se tornou uma pedra fundamental de nossa sociedade em nossso atual presente, mas vai moldar nosso futuro de maneira profunda.
Nesta exploração do tecnofeudalismo e do surgimento dos "cloudalistas", mergulhamos em um conceito especulativo que prevê um futuro em que alguns poucos oligarcas da tecnologia exercem poder e controle sem precedentes na história. Semelhante aos antigos Reis e à Igreja. Traçando paralelos com desenvolvimentos históricos, como o domínio do conhecimento pela Igreja durante o início do feudalismo e a poderosa Companhia das Índias durante a Era da Exploração, muitos estudiosos procuram entender as possíveis consequências dessa revolução digital.
À medida que se aprofunda nesse conceito, fica evidente que esses "cloudalistas" não apenas dominarão o domínio digital, mas também estenderão sua influência aos territórios inexplorados da exploração espacial. Eles acumularão riqueza e poder além do que qualquer "Capitalista" ou "Rei" jamais poderia sequer imaginado. Isso levanta questões profundas sobre o futuro da democracia, do capitalismo e do equilíbrio de poder em um mundo cada vez mais moldado pela tecnologia e controlado por poucos selecionados.
Citação: "Digital technologies are doing for human brainpower what the steam engine and related technologies did for muscle power during the Industrial Revolution." - "The Second Machine Age" by Erik Brynjolfsson and Andrew McAfee
O cenário:
Ao examinar a concentração de poder nas empresas de tecnologia e traçar paralelos com o feudalismo, encontramos semelhanças intrigantes entre o controle do conhecimento pela Igreja e a propriedade da terra pelos senhores feudais. Ambas as entidades exerceram domínio deste periodo que ficou conhecido como Idade das Trevas, controlando o cenário social e político da época.
No mundo medieval, a Igreja detinha o monopólio do conhecimento. Ela controlava o acesso à educação e à informação, atuando como guardiã das atividades intelectuais. De forma paralela, os gigantes da tecnologia contemporânea se posicionaram como guardiões da informação, exercendo controle sobre vastas quantidades de dados e influenciando o cenário do conhecimento geral. Essa influência se estende à formação da opinião pública, orientando o discurso político, e impondo as normas socias, o que lembra o papel da Igreja na formação de sistemas de crenças.
Neste périodo, os senhores feudais acumularam imensas propriedades de terra, o que lhes garantiu poder e influência sobre seus territórios e seus súditos controlando e cobrando por tudo que era produzido nas terras. Da forma similar, os oligarcas da tecnologia acumularam grande quantidade de poder computacional e controle sobre o reino digital, estabelecendo-se como senhores feudais digitais modernos. Seu poder econômico, que muitas vezes excede o da maioria das nações, permite que eles moldem políticas, façam lobby junto aos governos, contornem as regulamentações, da mesma forma que os senhores feudais exerciam influência sobre governo e moldavam os reinos.
Citação: "In a lot of ways, the internet is an updated version of the medieval cathedral, where citizens from surrounding villages would gather to buy, sell, socialize, learn and worship." - "The Innovators" by Walter Isaacson
Os perigos:
Esse domínio digital emergente indica uma possível transformação semelhante ao fim do feudalismo. Isso sugere que podemos estar vivenciando uma especie de renascimento digital, que pode levar a mudanças significativas nas estruturas da sociedade. A transição histórica do feudalismo para a era mais esclarecida e igualitária, dos Estados Nacionais Capitalistas Democráticos, marcada pelo explosão de conhecimento durante o Renascimento e o Iluminismo, oferece uma analogia amargamente convincente.
Nesta era digital, testemunhamos o embaçamento das fronteiras nacionais, o surgimento de entidades supranacionais e gorvernamentais. Uma evolução no conceito de cidadania à medida que as empresas de tecnologia operando entre países e atropelando a legislação local oferecem serviços que cada vez vão se tornando mais essenciais. Essa fase transformadora da história humana nos leva a considerar a possibilidade de um mundo pós-democrático, à medida que a influência dos oligarcas da tecnologia cresce e os sistemas convencionais ruírem.
A igreja e os lordes feudais usaram seu poder para controlar a população e expandir seu próprio poder. O tecno-feudalismo pode levar a uma situação semelhante, em que as empresas de tecnologia têm o monopólio da informação e dos recursos de computação e usam esse poder, para novamente, controlar a população e expandir seu próprio poder.
Dessa vez, será muito mais difícil reagir: Se as empresas de tecnologia tiverem acesso a todos os nossos dados, poderem rastrear todos os nossos movimentos e preverem nossos comportamentos, tornarão virtualmente nula nossa capacidade de fazer qualquer coisa para desafiar o status quo.
Citação: "The 21st century's grand scheme was rebranding mass surveillance as Social Media" - "The Age of Surveillance Capitalism" by Shoshana Zuboff
A Conclusão e o que eu tenho haver com isso?
Embora essas ideias possam soar como visões especulativas, elas têm raízes sólidas em tendências contemporâneas e em paralelos históricos. O tecno-feudalismo e a crescente influência das empresas de tecnologia em nossas vidas nos deve levar a refletir profundamente sobre o curso que nossa sociedade tomará no futuro.
No entanto, há uma classe de indivíduos que possui um papel singular nesta narrativa: os programadores. Os programadores, hoje em dia, são os arquitetos da sociedade. Eles constroem os algoritmos e sistemas que dão forma à nossa realidade. Portanto, eles têm um poder extraordinário e uma responsabilidade incomparável na moldagem do futuro.
Ao criar software, nos programadores temos o poder de decidir como os dados são coletados, utilizados e compartilhados. Determinamos como as informações fluem, quem tem acesso a elas e como são protegidas. A ética e a consciência que levamos para o trabalho desempenham um papel vital na mitigação dos riscos de uma sociedade dominada por oligarcas tecnológicos.
Como programadores, é fundamental considerar o impacto social, ético e político de cada linha de código que escrevemos. Devemos nos questionar sobre como nossos sistemas afetarão a privacidade, a equidade e a liberdade individual. Temos a obrigações de sermos os guardiões da responsabilidade social, resistindo à tentação de priorizar o lucro sobre um futuro prôspero para toda a sociedade.
Citação: "In a world that is defined by code, programmers create the reality." - "TabNews" by clacerda
E aí programador já conhecia estes conceitos e refletido sobre sua responsabilidade na construção de futuro saudável?