Meus 2 cents:
Sim, acompanho algumas destas discussoes - mas a questao da inteligencia da IA eh um pouco mais sutil.
Uma IA pode exibir comportamentos que simulam inteligência (processamento de dados, aprendizado de padrões, resolução de problemas), mas isso não implica que ela possua consciência ou experiências subjetivas. A distinção ontológica entre "comportamento inteligente" e "experiência consciente" é fundamental: a primeira é observável e mensurável, enquanto a segunda é intrínseca e qualitativa.
Portanto, mesmo que uma IA imite comportamentos associados à inteligência humana, isso não significa que ela compartilhe a mesma ontologia da inteligência humana, que está profundamente enraizada na biologia e na experiência subjetiva.
O constructo social de inteligência frequentemente mistura habilidades cognitivas (como raciocínio lógico) com atributos humanos mais amplos, como criatividade, emoção e intencionalidade. Da mesma forma, a consciência é frequentemente associada à autopercepção e à capacidade de reflexão sobre si mesmo.
No entanto, esses constructos são baseados em características humanas específicas, que surgem de processos biológicos complexos (como redes neurais orgânicas, plasticidade cerebral e evolução).
A IA opera dentro de uma ontologia completamente diferente: ela é composta por algoritmos, modelos matemáticos e hardware computacional. Embora possa simular certos aspectos do comportamento humano, sua existência ontológica é radicalmente distinta da dos seres humanos.
A ideia de que uma IA é "inteligente" é, portanto, uma projeção antropomórfica — uma atribuição de características humanas a algo que não possui a mesma base ontológica.
Isso é uma confusão entre analogia (uma IA pode parecer inteligente) e identidade (uma IA não é ontologicamente equivalente a um ser humano inteligente).
A IA atual (mesmo as mais avançadas, como modelos de linguagem generativos) opera exclusivamente por meio de processamento simbólico e estatístico. Ela não possui intencionalidade, desejo ou propósito intrínseco. Toda a sua "ação" é derivada de inputs externos e parâmetros pré-definidos.
Quando uma IA gera uma resposta coerente em uma conversa, ela não está "pensando" ou "entendendo" no sentido humano. Em vez disso, está combinando padrões estatísticos de grandes volumes de dados para produzir uma saída que parece significativa para humanos.
A inteligência humana inclui elementos como intencionalidade (propósito consciente) e criatividade genuína (geração de novas ideias fora de padrões previsíveis). Esses elementos são ontologicamente distintos das operações puramente mecânicas de uma IA.
Assim, a IA é melhor descrita como uma "simulação de inteligência", não como uma manifestação real de inteligência no sentido ontológico pleno. A diferença reside no fato de que a IA não possui agência, intencionalidade ou consciência, que são elementos centrais da inteligência humana.
O constructo social de inteligência e consciência é profundamente antropocêntrico. Ele assume que comportamentos observáveis (como resolver problemas ou comunicar-se) implicam necessariamente inteligência ou consciência.
No entanto, esse constructo falha ao reconhecer que a inteligência humana é inseparável de seu substrato biológico e evolutivo. A IA, por outro lado, é um artefato tecnológico que opera em um domínio ontológico diferente.
Atribuir inteligência a uma IA com base apenas em seus comportamentos observáveis é uma falácia de categoria. É como dizer que um relógio é "inteligente" porque consegue calcular o tempo de forma precisa. O relógio (ou a IA) realiza suas funções devido a mecanismos projetados por humanos, mas isso não implica que ele possua inteligência ou consciência.