Não seja um programador café com leite
Quer crescer na carreira? Aprenda a jogar o jogo do dinheiro
Há uma falsa crença de que, para ser um bom profissional, basta ser bom no que faz. Bem… sinto-lhe dizer, mas, isso é o básico. Para ser um bom profissional, é preciso, antes, ser uma pessoa madura.
Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu falo sobre a crise de falta de maturidade que assola o mercado de tecnologia e também dou algumas dicas sobre como se tornar um programador maduro.
Eu quero ficar perto do dinheiro
Estamos contratando uma pessoa de produto aqui para o Tintim. Como essa contratação é uma que eu nunca fiz na vida, decidi contratar um consultor para me ajudar com essa missão. Não é realmente um consultor, e sim um freela. Seu trabalho “oficial” é como head de produto na empresa de um amigo. A ideia inicial era ele me dar uma orientação geral sobre como executar o processo. Mas, o cara foi tão bom e tão profundo na sua explicação que eu propus contratá-lo para fazer o processo pra mim.
Batendo um papo com ele, acabei conhecendo um pouco mais da sua vida. Ele começou como programador e, com o passar do tempo, acabou migrando para a área de produto. Perguntei o motivo, e ele disse: “é porque eu queria ficar mais perto da área estratégica”.
Um outro grande amigo meu, Rodrigo Lopes (que já citei aqui várias vezes) também percorreu o mesmo caminho. Começou como programador e, quando fundou a Docket, foi estudar sobre produto. Eu, na Codevance, também tive que estudar alguma coisa sobre produto. Conforme fui vendendo contratos de prestação de serviços, fui percebendo que os clientes que contratavam desenvolvimento de software queriam, na verdade, um produto.
Apesar de saber um pouco de produto, minha carreira acabou migrando mesmo para o marketing digital. Hoje, de forma inconsciente, percebo que tinha o mesmo objetivo do consultor que citei antes: eu queria ficar mais perto da área estratégica. Em resumo: mais próximo do dinheiro.
A qualidade mais escassa no mercado de tecnologia
"A qualidade mais escassa no mercado de programação é maturidade e não conhecimento técnico." Esse é um tweet do meu amigo Henrique Bastos, escrito há 3 anos, mas, talvez eu tenha visto ele dizer sobre isso pela primeira vez lá por 2018.
Conheci o Henrique numa Python Brasil. Inclusive, eu frequentei durante alguns anos a comunidade Python, mas acabei pegando um pouco de bode. Talvez, essa falta de maturidade tenha sido o principal motivo que me fez querer “buscar outras tribos”.
Pra você ter uma ideia, depois de alguns anos afastado, eu decidi voltar à uma Python Brasil no ano passado. O objetivo não era o evento em si, mas, sim, aproveitar uma oportunidade para rever amigos que não via há anos, e visitar parentes no Rio de Janeiro. De quebra, ainda poderia consumir algum conteúdo que fosse útil. Quem dera…
Eu fiquei abismado com o que vi. Enquanto Python é a linguagem mais popular do mundo, o evento mal tinha 300 pessoas. Ao ver a grade de palestras, eu entendi o motivo: um ambiente completamente desconectado com o mundo real. Não tinha UMA palestra que tivesse conexão com o mercado de trabalho. Somente conteúdos ideológicos ou voltados para quem estava tendo seu primeiro contato com a linguagem. Eu, como um empresário que usa o Python para sustentar 25 famílias, não consegui encontrar NADA de útil.
E isso não está acontecendo somente em eventos. A grande maioria de todos os conteúdos, independente do canal, também são imaturos. Faça o teste você mesmo: abra o Youtube, navegue pelos vídeos dos influencers de programação e veja com seus próprios olhos. O que você verá são conteúdos defendendo uma linguagem e falando mal de outra, ou então vídeos reclamando, seja do ambiente, seja do “patrão malvadão”, seja do processo seletivo, seja da “falta de respeito com os pronomes neutros” (pqp).
Acho que, sim, esses conteúdos devem ser produzidos, afinal, há demanda. Existe uma fase da nossa carreira, inclusive, em que é normal sermos imaturos. Faz parte da vida. O problema é que há demanda demais para esse tipo de conteúdo. Há muitos adultos na tecnologia, muitos mesmo, que ainda são imaturos quando não deveriam mais ser.
Se você acha que eu estou exagerando, saiba que eu não estou sozinho nessa. Essa constatação é meio que unânime quando falamos com as camadas de liderança das empresas de tecnologia. A diferença é que essa galera não fala isso em público para não comprar briga.
Além disso, está começando a surgir um movimento de novos produtores de conteúdo de tecnologia que resolveram tratar o assunto pelo ponto de vista profissional, pelo ponto de vista de negócios… Eu faço parte dessa galera. Colegas como o Rodrigo e o Kelvin, por exemplo, também estão juntos comigo.
Enxergue a metade cheia do copo
Veja: eu sei que é gostosinho defender sua linguagem de programação predileta. Eu sou fã de carteirinha de Python e encho o saco do Rodrigo porque ele gosta de Java. Há lugar, sim, para esse tipo de discussão: na mesa de bar, e não dentro de um escritório.
Eu também entendo que, como em todo mercado, no mercado de tecnologia há problemas que precisam ser corrigidos. Há, sim, chefes escrotos e culturas escrotas. São pautas que têm seu valor e valem ser discutidas.
Mas, uma das primeiras qualidades de uma pessoa madura é entender a realidade à sua volta. O programador está inserido, talvez, no melhor mercado do planeta atualmente. O mercado de tecnologia tem MUITO dinheiro, e o que não falta é oportunidade. Conheço pessoas que vieram do nada e, “apenas” fazendo um trabalho bem feito, conseguiram conquistar casa e carro em uma década de carreira.
O mercado de tecnologia melhorou a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Pessoas que não tinham acesso a crédito há 10 anos atrás hoje têm uma conta no Nubank, no Inter e no C6. Pessoas que não tinham acesso a produtos de qualidade hoje não precisam sair de casa, pois basta entrar no Mercadolivre, Amazon ou Shopee para ter acesso a uma infinidade de produtos a preço justo, e ainda receber sua compra em casa no dia seguinte.
Proporcionalmente falando, nosso mercado tem MUITO mais coisas boas do que ruins.
Como ser um profissional maduro
“Ok, Moacir! Entendi que a maioria dos programadores são imaturos. Mas, como eu sei o que é ser um programador maduro?”
Vamos lá…
Conheça o seu cliente
Entenda que a programação não é um fim em si mesmo. A programação é um meio de resolver problemas do seu cliente.
O cliente não está nem aí se você usa React ou jQuery. O cliente não está nem aí se você usa Python ou Java. O cliente não está nem aí para os design patterns do Martin Fowler. Tudo isso é apenas recurso, apenas ferramenta, para você fazer o que importa: resolver o problema do cliente.
Sim, você precisa ter bastante conhecimento técnico. Isso é o básico. Mas, você precisa ir além disso. Você precisa conhecer com profundidade seu cliente, a pessoa que você ajuda. Você precisa entender seus problemas, suas dores, seus desejos, suas motivações, seus sonhos.
Seu objetivo, como profissional da tecnologia, é servir seu cliente. Sempre.
Estude sobre produto
De novo: tecnologia é meio para construir produto. Produto é meio para resolver problemas. Se você quiser ser um profissional valioso, deixe de ser um programador e torne-se um resolvedor de problemas.
Questione sempre o porquê de uma funcionalidade. Por que essa funcionalidade precisa ser construída? Qual é o problema a ser resolvido?
Ao entender mais sobre a disciplina de produto, você começa a entender o porquê do seu trabalho.
Estude sobre negócios
Por mais que a maioria das startups não dêem lucro, o lugar em que você trabalha é, sim, uma empresa com fins lucrativos.
Quanto mais você entender sobre a matemática financeira de uma empresa, mais você vai conseguir entender como o seu trabalho pode impactar positivamente no resultado da companhia.
Por isso, aprenda a ler um DRE. Aprenda o conceito de métricas básicas, como CAC, LTV, Churn, etc. Busque saber os números da empresa que você trabalha. Por fim, busque entender: como sua entrega aumenta o LTV da empresa? Como sua entrega diminui o churn da empresa?
Não seja um custo para empresa
Empresas possuem dois tipos de despesas: custo e investimento. Investimento é todo o dinheiro gasto com o objetivo de trazer mais dinheiro. Custo é todo o dinheiro gasto para manter a empresa funcionando. O investimento que dá retorno a gente aumenta. Custo a gente sempre corta.
Se você entende que o seu trabalho é gerar valor para o seu cliente, você é um investimento. Se você não entende isso, você é custo. Simples assim.
Os recursos de uma empresa sempre serão limitados. A empresa não tem todo o dinheiro do mundo e, principalmente, não tem todo o tempo do mundo. Sempre há um trade off entre escopo, qualidade e velocidade.
Aprenda a priorizar. Aprenda a otimizar os recursos com um único objetivo: resolver o problema do cliente de uma forma que seja lucrativa para a empresa.
Amadureça emocionalmente
Coloque na sua cabeça que o usuário NUNCA tem culpa. Se ele não sabe usar seu software, significa que VOCÊ falhou em entendê-lo.
Além disso, não leve as coisas para o lado pessoal. Numa empresa, ninguém te deve nada e, provavelmente, ninguém se importa com você. Todo mundo está focado apenas em resolver o problema do cliente.
É impossível amadurecer profissionalmente sem amadurecer pessoalmente. Dói, dá trabalho, mas é recompensador.
Quer saber se você é uma pessoa madura? Faça um teste: você se ofendeu com esse texto? Se sim, provavelmente você ainda não é maduro o suficiente. ;)
✉️ Esta foi mais uma edição da Newsletter do Moa!
💪🏻 O meu objetivo com essa newsletter é ajudar profissionais de tecnologia que desejam desenvolver uma visão mais estratégica.
Além disso, pretendo também compartilhar outras coisas, como um pouco dos bastidores da construção de um negócio SaaS, as minhas opiniões e meus aprendizados. A ideia geral é ser uma documentação pública e estruturada dos meus pensamentos e aprendizados ao longo dos anos.
Portanto, se você se interessa por soft-skill, desenvolvimento pessoal, empreendedorismo e opiniões relativamente polêmicas, sugiro que você se inscreva para receber as próximas edições. ⬇️